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A Idéia da Mostra Cultural Comunitária

Junho 12, 2011

Uma universidade durante um domingo. É de se esperar o contrário da movimentação dos estudantes da semana letiva. É de se esperar espaços vazios e um tipo de silêncio que escorre pelos corredores e rebate por entre as árvores. Mas quem adentrou o campus da Universidade Federal de Santa Catarina no dia 20 de março desse ano não ouviu o silêncio e nem não-viu-ninguém: o ambiente estava tomado por crianças de comunidades da cidade, em sua maioria do Maciço Central, o céu estava colorido por pipas e o silêncio era quebrado pelo rap do grupo Arma-zen, da comunidade Monte Cristo.

Rapaziada brincando de pipa durante a I Mostra Cultural Comunitária.

Essa era a cena da primeira Mostra de Cultura Comunitária, realizada pelo Diretório Central dos Estudantes da UFSC e pelo Projeto Patrimônio Caeira. A idéia era mostrar que as comunidades podem – e devem – fazer parte de um espaço que também é seu. No Fórum das Comunidades do Maciço Central de Florianópolis, em meados de 2000, o Laboratório de Análise Ambiental (LAAM) e o Núcleo CIDADHIS da Universidade Federal de Santa Catarina propuseram a elaboração de um Plano Comunitário de Urbanização e Preservação, projeto com o intuito de desenvolver trabalhos e atividades que promoveriam o convívio entre a Universidade e as comunidades dos Morros.

Cartaz da I Mostra de Cultura Comunitária

A distância entre a teoria e a prática. No dia-a-dia universitário não se vê convívio algum. Naquele domingo, que tinha como tema as “pipas”- parte da cultura e linguagem das comunidades – a Reitoria estava de portas fechadas. Não era só a Reitoria que se fazia ausente – os próprios estudantes que lotam o campus durante a semana letiva mal participaram da ação. A Universidade Federal de Santa Catarina acompanhou o processo de “inchaço” e constituição grossa das comunidades ao seu redor. Fundada oficialmente em 1960, quando passou suas instalações do centro para a Trindade, sendo o campus em dado momento uma fazenda gigante, a universidade viu, literalmente, o crescimento desenfreado dos morros que a circundam. Mas não é porque se vê que alguma coisa se faz. Percebendo isso – a distância entre a universidade e as comunidades de Florianópolis, uma realidade cômica para uma universidade que se diz “produtora de conhecimento para a sociedade” – é que o Cardume teve a iniciativa de construir a II Mostra de Cultura Comunitária (@MostraCulturalC), que vai acontecer no dia 19, próximo domingo, no campus da Trindade. Já que nessa distância contraditória, nem a universidade, nem as comunidades, deixaram de existir.

"Garoto empinando pipas", tirada por Pierre Verger na Bahia, em 1940; a cultura da pandorga como manifestação cultural.

A II MCC foi uma iniciativa do Cardume, e conta com a parceria da CUFA, da UNEGRO, do MST, do DCE UFSC, com a ajuda de estudantes da UFSC e da UDESC e com financiamento da Reitoria da UFSC. O pessoal da organização logo percebeu a importância da cultura para aproximar as realidades, e se espelhou na experiência do domingo da I MCC. Dona Neili Terezinha da Silva Lopes e Rita de Cassa Moreira Martins, moradoras do Caeira do Saco dos Limões e professoras voluntárias de artesanato na comunidade, assistiam, naquele domingo, a criançada empinar pipa de um lado para o outro pelo campus universitário, enquanto vendiam alguns de seus produtos – Rita também faz quitutes, cucas, bolos de milho, receitas herdadas de família. Ela comentou “aproveita-se o espaço para a convivência em família.” O grupo de rap Arma-zen, que faz trabalho culturais em sua comunidade,  falou da importância “para a gente que vive no dia-a-dia da, ver a criançada brincando na rua, se divertindo”. O grupo que se autodenomina, “de família” consegue, através da linguagem artística – músicas que denunciam disparidades sociais e economicas – unir morros que tem richas entre si. “O nosso trabalho é plantar em cada um de nós a esperança, educar a rapaziada que ta ouvindo rap”, diz Maicon, um dos integrantes do grupo.

“Cabeças-de-Pipa” de Rafael Vilela, membro do Cardume e um dos organizadores do evento. A série foi desenvolvida durante o projeto Patrimônio Caeira.

E a rapaziada que brincava de pandorga na I Mostra, no domingo aqui tão comentado, cantava todas as músicas brincando de pipa, enquanto os pais passeavam pelos bem cuidados jardins ufsquinianos. Foi do Projeto Patrimônio Caeira, que teve como objetivo registrar a memória cultural da comunidade do Caeira através de fotografias, textos, encenações e material virtual, que surgiu a idéia da utilização das “pipas” como tema.

A Organização da II MCC se apropriou da idéia – no melhor sentido da palavra – e expandiu o tema de mostra cultural com apresentações, oficinas, feiras e muita música – o samba-de-raíz do grupo Torresmo a Milanesa, os batuques do Maracatu Arrasta-Ilha e o rap do grupo Arma-Zen da ilha cortarão dessa vez o silêncio do complexo universitário durante a II Mostra.

Grupo Arma-zen lança seu novo CD esse domingo, na II Mostra

Faz muito sentido aproveitar um espaço que é público, para o povo, já que falamos aqui de uma universidade pública. E fica a pergunta: quantos espaços públicos são mal utilizados em uma cidade que forja sua cultura e vende uma fachada? No dicionário, a palavra público é definida como relativo ou pertencente ao povo. Parece, hoje, aqui e agora, que público é sinal exclusivo e de pobre assimilação. São as ideologias cômicas de um Brasil contraditório numa Ilha feita por Esportes, Turismo e Cultura.

Algumas crianças deixam de empinar pipas para somente colecionar as que caem dos céus. I Mostra Cultural Comunitária

Uma universidade pública durante um domingo. O que é realmente de se esperar? A organização da II Mostra Cultural Comunitária e o coletivo Cardume esperam a ocupação do público pelo público num dia de integração e diversão. É esse domingo, dia 19, a II Mostra de Cultura Comunitária, logo mais postaremos a programação completa. Se  nossas vidas se fazem sob uma malha urbana de isolamentos e exclusões sociais, vamos celebrar a riqueza das manifestações culturais e aprender a compartilhar experiências. Afinal, o conceito de comunidade universitária deve significar muito mais do que um conjunto de estudantes, professores e servidores que circulam pelos seus espaços diariamente.

por Júlia Albertoni

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One Comment leave one →
  1. Reginalice Cera da Silva permalink
    Junho 13, 2011 22:24

    Parabéns aos organizadores pela iniciativa!!

    Que a UFSC mostre para outras Universidades públicas e privadas deste imenso Brasil o sentido de integrar, compartilhar e universalisar. Sucesso!!!

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