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Qual é o problema?

Novembro 20, 2011

Por Talles Lopes, Casa Fora do Eixo Belo Horizonte

Nos últimos anos, foram criados e se desenvolveram algumas ações e empreendimentos no campo musical independente brasileiro, que puderam gerar a constituição e irradiação de estruturas e novos modelos de negócios. Esses novos modelos, sem dúvida nenhuma, por sua vez criaram novas oportunidades para os artistas independentes brasileiros e diversificaram extremamente as possibilidades de construção e consolidação de carreiras profissionais.

Não é novidade, nem falácia, que até o final do século XX e início do século XXI, existia um único modelo hegemônico de produção e promoção musical no Brasil, ligado as estruturas desenvolvidas pelas grandes gravadoras. Por mais que existissem centenas de atividades independentes, conduzidas por verdadeiros guerreiros apaixonados por Música, as condições para o desenvolvimento de uma carreira profissional, totalmente dedicada ao oficio musical, estavam concentradas e enclausuradas nas estruturas desenvolvidas pelo mainstream. Neste sentido, ser artista independente no Brasil, significava, necessariamente, se dedicar à música e a uma outra atividade econômica, muitas vezes desconectada do ambiente artístico, e muito mais laboriosa do que prazerosa. (Galera mais das antigas, podem me corrigir, caso esteja enganado)

Contudo, a paritr de 2005, um novo fenômeno começa a ganhar muita força no Brasil, e de forma sistêmica e articulada. Dezenas de produtores, músicos, comunicadores e, principalmente pessoas apaixonadas pela música independente brasileira, começam a se organizar coletivamente, e apostar na construção de plataformas estruturantes para esta nova música no Brasil. De repente, agentes espalhados pelo país se conectam sistematicamente, com o objetivo se pensar e construir novas estruturas que fossem capazes de segurar e erguer uma carreira: não apenas de um grupo seleto de artistas absorvidos pelas estruturas das grandes gravadoras, mas também um conjunto de outros artistas e agentes culturais. Nascem associações de festivais independentes, de rádios públicas, de selos independentes, surgem cooperativas e fóruns, tanto de músicos como de música. De forma espantosa e extremamente rápida, se constitui uma grande rede de música e cultura no Brasil, que passa a conectar circuitos de shows, distribuição de produtos e produção de conteúdo, num país de dimensões continentais. (Pra quem não sabe o Brasil hoje é a principal referência de redes culturais em todo o mundo).

Estes novos movimentos organizados, por estarem organizados, passam a ter uma força política maior. Desta forma, começam a construir canais de dialogo mais fluido, tanto com o poder público, quanto com a iniciativa privada. Buscavam tanto desenvolver políticas publicas que auxiliassem neste processo de construção, quanto ampliar os investimentos diretos no setor musical independente. Isto porque o objetivo principal era o de ampliar as possibilidades de sustentabilidade para os agentes envolvidos, ou pra usar uma expressão que se tornou comum nos últimos anos, criar um mercado médio para a música brasileira.

Se até o início deste século o modelo de negócio na música tinha apenas um campo hegemônico, que era pautado pelas grandes gravadoras, podemos dizer, também, que a política cultural brasileira tinha apenas uma diretriz clara: ser tratada como cereja do bolo, como perfumaria institucional. As milhares de secretarias e fundações de cultura espalhadas pelo país se restringiram a organizar festas de aniversário, páscoa, natal e ano novo, sem nenhum tipo de desenvolvimento de políticas públicas estruturantes, com raríssimas exceções; normalmente gastavam grande parte de seu pequeno orçamento na contratação de artistas já consagrados. O Ministério da Cultura era a pasta mais periférica e com menor orçamento do governo federal, e seguia a linha patrimonialista, funcionando como uma grande balcão de negócios, onde lobbies e privilégios eram, normalmente, os caminhos escolhidos para definição das linhas de investimento. A política pública federal era pautada pela Lei Rouanet, que deslocava a decisão das prioridades de investimento para o Mercado, o que levava necessariamente a concentração absurda dos recursos em uma única região, e consequentemente a um número escasso, segmentado e já posicionado de artistas.

Contudo, e felizmente, no meu entender, paralelo ao processo de organizacão do setor musical independente brasileiro nos últimos anos, a política cultural brasileira viveu, a partir do governo Lula e do Ministério encabeçado por Gilberto Gil, uma mudança radical nos seus princípios. O lobby e os privilégios são substituídos por políticas claras de editais públicos, o processo de organização do setor cultural brasileiro é estimulado, com a realização de conferências, criação de conselhos e colegiados, e toda uma política cultural integrada. Tendo a cultura não mais como perfumaria, esta passa a ser redesenhada, com o desenvolvimento do Sistema Nacional de Cultura e do Plano Nacional de Cultura. Pela primeira vez, uma política de descentralização regional e valorização do artista independente, das práticas culturais tradicionais, e de estimulo à inovação, começa a ser implementada no Brasil.

Foi neste ambiente, mais democrático e mais republicano, que os novos movimentos musicais brasileiros se desenvolveram, tendo em vista claramente a importância estratégica da ampliação dos investimentos em cultura, na busca de corrigir distorções colocadas pelo Mercado, e principalmente, buscando ampliar o campo de oportunidades para os agentes espalhados por todo o Brasil.

A soma destes dois processos, organização do setor musical brasileiro e amadurecimento das políticas públicas para a cultura, geraram um novo contexto. Acredito que as pessoas que estão minimamente conectadas com a música independente brasileira conseguem perceber isso. Não tenho receio algum em afirmar que nunca, antes, tantos shows foram feitos, em condições cada vez melhores, e tantos músicos independentes conseguiram viabilizar a sua carreira. Palcos se multiplicaram em todo o país, festivais independentes pipocaram em todas as regiões, e as estruturas em cada cidade e em cada festival têm melhorado ano a ano. Os espaços para a venda de produtos musicais, cd’s, camisetas, botons, e todo tipo de merchandising, foram ressignificados e se multiplicaram pelo país, em banquinhas montadas em cada evento produzido no país. E dezenas de artistas independentes, com seu trabalho e autonomia formam a público Brasil afora, onde desenvolvem processos autogestionários de carreira.

Resolvi fazer esta rápida e incompleta contextualização, para tentar entender o real motivo de termos um grupo de artistas e jornalistas, supostamente independentes e conscientes, que insistem em questionar os processos de estruturação do setor musical independente brasileiro. Este é um debate que já dura alguns anos. Mesmo diante do crescimento vertiginoso das oportunidades para o músico brasileiro, e da diversificação e regionalização, também vertiginosa, das novas plataformas e modelos de negócio, os argumentos utilizados pelos críticos permanecem estanques e numa mesma direção: o uso do dinheiro público e a suposta oposição entre estrutura e estética, evidenciada no debate arcaico sobre a oposição entre música e política.

Fica a pergunta: qual será o problema? O que leva alguém a se pronunciar como defensor do artista independente, ou defensor da Música, e negar todo este processo? Antes o problema era: o governo não investe e o setor musical é desorganizado, e agora o problema é que o governo investe e o setor musical se organizou demais. Antes o problema era que não tinha lugar pra tocar, e agora o problema é que tem lugar demais pra tocar. Antes o problema era que não tinha espaço pra divulgar o trabalho, e agora o problema é que tem espaço demais, por conta da internet, mas que não temos os filtros necessários para um posicionamento em massa de um grupo de artistas.

Onde será realmente que está o problema? Será mesmo que existe algum problema, ou o que estamos vendo é uma crise de protagonismo, diante do desenvolvimento de uma nova lógica que amplia o número de protagonistas?

Prefiro deixar estas indagações, por hora, no ar, pra que possamos pensar juntos; mas tenho algumas suspeitas. A primeira delas é que para muita gente, reclamar e se colocar na posição de crítico é muito mais cômodo do que encarar o desafio de se juntar a outras pessoas e buscar soluções compartilhadas para os problemas. A segunda é que mesmo diante de todas as mudanças que ocorreram nos últimos 10 anos, tem muita gente que gostaria que o antigos modelos de produção musical das grandes gravadoras e de política cultural ainda estivessem consolidados, desde que eles fossem os escolhidos e privilegiados.

Tem muita gente que sonhou e que continua sonhando ser um popstar!

E você, o que quer?

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